Aprendendo com João Calvino a entregar o coração a Deus

segunda-feira, 27 de julho de 2015

A VIDA PIEDORA DE JOÃO CALVINO

É sabido de todos que João Calvino teve uma vida curta, porém de muita produção. Ele não conheceu descanso nesta vida: pastor, professor, homem de estado, conselheiro, e escritor. Nos anos triunfais e finais de sua vida, Calvino contabilizou milhares de cartas endereçadas a mais de 300 destinatários diferentes. Prisioneiros, governantes, fiéis, reis e duques. Escreveu até o final de sua vida.
E durante ela, Calvino sofreu várias enfermidades. Sua saúde era frágil. As dores que começaram a se apresentar em 1555. E mesmo em meio às dores de artrite, crises de tuberculose, pleurisia, hemorroidas, gota, febre quartã, enxaqueca, dispepsia, asma, e crises renais agudas, (junte-se a isso uma vida de lutas e controvérsias com adversários tenazes) Calvino persistia em uma extraordinária lucidez de espírito, sendo altamente produtivo e operoso. Cumpria todos os deveres, com a maior pontualidade, no púlpito, na Academia e no Consistório.
É espantoso como muitos mestres acadêmicos seculares, e até mesmo alguns cristãos, em prol da defesa de suas doutrinas, tentam passar a imagem de um Calvino, inquiridor, carrasco, pai do capitalismo, e alguns até mesmo de assassino. Os arminianos sinergistas, por sua vez, concentram seus ataques na doutrina da eleição, o que faz com que muitos associem Calvino a somente esta doutrina.
O Rev. Dr. Hermisten Maia, pesquisador sobre calvinismo, sempre diz que é curioso como Calvino escreveu mais sobre oração do que sobre eleição, mas isso ninguém repara. O Calvino que tem sido atacado em algumas universidades e até em alguns seminários, é um Calvino atacado por ignorantes de sua vida de piedade e diligência.
Certamente desconhecem que todas as suas economias, vindas da venda da biblioteca e do mobiliário foram legadas a seu irmão Antônio Calvino e filhos, fazendo uma pequena doação à caixa dos estudantes pobres e outra aos estrangeiros necessitados. A propósito, comenta Goguel: “Tudo isso prova o desinteresse deste homem que havia sido o árbitro da república de Genebra e de uma parte da Europa ocidental. Sua fortuna não atingia a cifra de 255 escudos!”
Calvino encerra uma carta a Cristofer Piperin assim: “Mas se durante a minha vida não escapei à fama de ser um homem rico, a morte indicará por fim esta imputação lançada ao meu caráter”. Com efeito, o seu testamento provou a sobriedade de sua fortuna e a imputação caluniosa de seus adversários.
Seus ferrenhos acusadores ignoram que Calvino não se deixava absorver pelos bens materiais. Que rejeitou aumento de estipêndio, recusava presentes e vivia com muita sobriedade. Em Estrasburgo, seus proventos não lhe permitiam muitas regalias e teve de admitir pensionistas em casa. O cardeal Sadoleto, em visita a Calvino, ficou espantado ao ver que o “Papa de Genebra” não habitava num palácio episcopal e sim numa modesta habitação e, em vez de um cortejo de servidores, era ele mesmo o porteiro que o saía a receber.
Conta-se do papa Pio IV que, ao ouvir a notícia da morte de Calvino, rendeu-lhe tributo de admiração nestas palavras: “A força deste herege nisto consistia: O dinheiro não tinha para ele a mínima atração. Se tivesse eu servos tais, meus domínios se estenderiam de mar a mar”.
Somente um homem muito piedoso poderia receber um testemunho de sua esposa que se encontrava à beira da morte. Calvino, em 7 de abril de 1549, escreve para Pierre Viret, sobre a morte de sua esposa, Idelette de Bure. Em um trecho dessa carta, se acha o seguinte relato: “...Fui privado da melhor companhia de minha vida, daquela que, se assim lhe fosse ordenado, estaria disposta a partilhar não apenas da minha pobreza, mas até mesmo da minha morte. Enquanto viveu, foi a fiel auxiliadora do meu ministério. Nunca tive nela o menor obstáculo. Durante toda a sua enfermidade, ela jamais foi um fardo para mim, mas estava mais ansiosa a respeito de seus filhos do que de si mesma. Como eu temia que esses cuidados particulares a perturbassem inutilmente, aproveitei a ocasião, no terceiro dia antes de sua morte, para mencionar que não deixaria de cumprir o meu dever para com os seus filhos. Pegando o assunto imediatamente, ela disse: “Já os confiei ao cuidado de Deus”. Quando lhe disse que isso não me impediria de cuidar deles, ela respondeu: “Eu sei que você não negligenciará aquilo que foi entregue ao cuidado de Deus”.
Esse mesmo fato é relatado na carta que Calvino escreve a William Farel, em 11 de abril de 1549: “...declarei na presença dos irmãos, que, doravante, cuidaria deles como se fossem meus. Ela respondeu: “Já os entreguei ao cuidado do Senhor”. Quando respondi que isso não me impediria de cumprir meu dever, ela respondeu imediatamente: “Se o Senhor cuidar deles, sei que serão confiados a você”.
É louvável como mesmo no período mais crítico de padecimento, a mente de Calvino conservava todo o vigor, trabalhando com os seus secretários. Vale a pena “ouvir” o depoimento de Teodoro de Beza, conforme refere Bungener:
“Não obstante isso, não cessou ele de trabalhar. Nessa última enfermidade, traduziu do latim para o francês a Harmonia Sobre Moisés, fez a revisão da tradução de Gênesis, escreveu sobre o livro de Josué, e finalmente, passou em revista e corrigiu a maior parte das anotações francesas sobre o Novo Testamento, que outros haviam anteriormente compendiado. Além disso não se poupou aos interesses da Igreja, respondendo por palavra e por escrito sempre que se fazia necessário; ainda quando de nossa parte o exortávamos a ter mais cuidado de si mesmo. Replicava ordinariamente que nada fazia de mais. Que tolerassem que Deus o achasse sempre vigiando e trabalhando na sua obra conforme ele pudesse, até o último suspiro.”
Somente um homem piedoso, à beira da morte, seria capaz de entoar, muito debilmente, o hino “Despede, Senhor, o teu servo em paz”.
Somente um homem piedoso terminaria sua vida repetindo as palavras do Apóstolo Paulo: “Os sofrimentos da presente vida não podem ser comparados com a glória vindoura”. Gaberel refere que ele não pode acabar a última palavra.
O ano de 1564 marcou o fim de uma vida frutífera. Calvino faleceu no dia 27 de maio, faltando um mês e treze dias para completar 55 anos. Alguns lembram desse ano porque foi o mesmo ano do nascimento de Shakespeare e de Galileu e da morte de Miguel Ângelo.
Teodoro de Beza descreveu assim esse fato: “Desta forma voou para o céu, quando o sol penetrava no ocaso, o grande luminar que era a lâmpada da Igreja. Pela noite e pelo dia seguinte imenso era o pesar e a lamentação na cidade, porquanto a República perdera o seu mais sábio cidadão e a Igreja o seu pastor fiel, a Academia um mestre incomparável. Lamentavam todos a partida do pai comum e do melhor confortador abaixo de Deus. A multidão se encaminhava à câmara funerária e dificilmente se separava daquele corpo inanimado. Entre os visitantes estava o distinto embaixador inglês na França, que havia ido a Genebra para travar conhecimento com o célebre homem e desejava ver agora os seus despojos”.
O último pedido de Calvino foi atendido. Ele pediu que o lugar de sua sepultura não fosse indicado. Um funeral simples, com poucas palavras e nenhum cântico. Sem lápide na sepultura do cemitério comum de Plainpalais. Uma pequena lápide com as simples iniciais J. C. foi erigida muito tempo depois. Seu verdadeiro epitáfio foi a sua vida!
Bungener assim comenta a singeleza da sepultura de Calvino: “Tem-se visto estrangeiros tomados de indignação, vendo esta pequena lápide, que, aliás, a contemplam com maior emoção do que se estivesses diante de um rico mausoléu....”
O historiador Guizote, falando de Calvino, assim conclui um de seus livros: “Ardente na fé, puro nos motivos, austero na vida e poderoso nas obras, Calvino é um daqueles que merecem grande fama. Três séculos nos separam dele, mas impossível é examinar seu caráter e sua história sem que se experimente, quando não seja afeto e simpatia, ao menos um profundo respeito e admiração para com um dos grandes reformadores da Europa e um dos grandes cristãos da França.”
Calvino tem sido diversamente apreciado por juízes competentes, críticos severos e adversários irreconciliáveis. O cético Renan, dissentindo muito embora dos conceitos teológicos do doutrinador de Genebra, considera-o como “o maior cristão do século em que viveu”. Foi qualificado de “Aristóteles da Reforma”, de “Tomás de Aquino da Igreja Reformada”, de “Licurgo da democracia cristã”, de “Papa de Genebra”. Como figura eclesiástica, não faltou quem o comparasse a Gregório VII e a Inocêncio III.
Quando Calvino morreu, Zwinglio, Lutero e Melanchton, grandes vultos da Reforma, já haviam cerrado os olhos. Farel viveu ainda um ano e João Knox mais oito.
Calvino morreu ainda no meio das lutas da Reforma, como se deu com Lutero e os principais reformadores. Eles não criaram uma nova religião e nunca a tal se propuseram. Apenas entenderam firmar a Igreja nos velhos princípios dos tempos apostólicos, rejeitando as inovações doutrinárias. Hoje, no Brasil e em vários países, precisamos de Calvinos, Luteros, at all, que se proponham à mesma tarefa daqueles grandes reformadores, em seus respectivos países.
No terceiro centenário da Reforma em Genebra, em 1835, cunhou-se uma medalha comemorativa, tendo num lado a imagem de Calvino com o nome e data do nascimento e da morte. No reverso, via-se o púlpito de Calvino com o texto: “Conservou-se firme como se visse o invisível” (Hb.11:27), e a inscrição latina: “Corpore fractus, Animo potens, Fide Victor, Ecclesiae reformator, Genevae pastor et tutamen”.
Neste resumo citei vários testemunhos de homens ilustres sobre a personalidade de Calvino. Quero trazer um último depoimento de um crítico neutro, Ernesto Renan, extraído de “A Reforma”, de Lindsay (p.83). Ele é insuspeito pelo fato de não ser calvinista. Diz ele:
“Era Calvino um daqueles homens absolutos que parecem ter sido vasados de um só jato num molde, e que se estudam por meio de um simples olhar. Uma carta, um gesto é bastante para se formar deles um juízo... Não dava importância a riquezas nem a títulos, nem a honras, indiferentes às pompas, modesto no viver, aparentemente humilde, tudo sacrificava ao desejo de tornar os outros iguais a si. Excetuando Inácio de Loyola, não conheço outro homem que pudesse rivalizar com ele nestes raros predicados. É surpreendente como um homem cuja vida e cujos escritos atraem tão pouco as nossas simpatias se tornasse o centro de um tão grande movimento e que suas palavras tão ásperas, sua elocução tão severa, pudessem ter uma tão espantosa influência sobre os espíritos de seus contemporâneos. Como se pode explicar, por exemplo, que uma das mulheres mais distintas de seu tempo, Renata de França, que, no seu palácio de Ferrara, se via cercada dos mais brilhantes talentos da Europa, se deixasse cativar por aquele severo doutrinador, enveredando, por sua influência, numa senda que tão espinhosa lhe deveria ter sido? Semelhantes vitórias só podem ser alcançadas por aqueles que trabalham com sincera convicção. Sem manifestar aquele ardente desejo de procurar o bem dos outros que foi o que assegurou a Lutero o bom êxito de seus trabalhos, sem possuir o encanto, a perigosa, posto que lânguida doçura de S. Francisco de Salles, Calvino saiu vitorioso, numa época e num país em que tudo anunciava uma reação contra o Cristianismo, e isso simplesmente por ser o maior cristão do seu tempo!”
Em relação a caracteres assim vasados, a Igreja não pode senão dizer com o salmista: “Non nobis, Domine, non nobis, sed nomie tuo da gloriam” (Sl.115.1).
Encerro dizendo como registrado na medalha comemorativa, que, Calvino, débil na estrutura física, vigoroso porém na organização intelectual e moral, simples no viver, austero nos costumes, indefesso no trabalho, irredutível na fé, erudito no saber, nobre nas intenções, invulgar na coragem, hábil no raciocínio – soube como poucos neste mundo, redimir prudentemente o seu tempo e empregar o talento e os dons de que fora dotado na glorificação do Criador e Redentor de sua alma. O emérito doutrinador e piedoso homem de Deus ocupará sempre um lugar de destaque entre os grandes vultos da Igreja, sem embargo dos anátemas que os adversários de todos os tempos procuram fazer descer sobre sua memória respeitável.

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Texto adaptado de Arleilson Albino. Disponível em: <http://arleilsonalbino.blogspot.com.br/2010/05/fui-convidade-para-falar-sobre-joao.html>. Acesso em: 27 de jul. 2015.
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Pastor presbiteriano, teólogo, professor e historiador. Mestre em Ciências da Religião (UPM/SP), e autor dos livros: O coração a Deus (síntese da espiritualidade de João Calvino), e Desenterrando os tesouros de Deus (os princípios da verdadeira oração em João Calvino) e Ser cristão: a carta de Tiago e o resgate da identidade cristã.

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